
Sem Retorno
Sair do útero e penetrar numa estrada sem retorno, creio que nisto reside o espanto e a angústia de existir.
Entramos na vida por uma porta que se fechou para sempre; sairemos dela, por uma porta que também se fechará para sempre, que solitário!
Perceber a paisagem que acompanha essa estrada e ficar atento à sinalização, este é o início da aprendizagem; o primeiro passo para a compreensão da riqueza que se esconde por detrás da assustadora e maravilhosa experiência de estar vivo.
Às vezes, esquecemos a paisagem e ficamos obcecados pelas placas e avisos, a vida então, torna-se árida e sem cor; outras, nos deleitamos com a paisagem e esquecemos orientar nosso caminho, criar uma meta e deixamos de ser atores para ser espectadores dessa maravilhosa cena.
Tomar as rédeas da vida em nossas mãos e descobrir que, se às vezes, não podemos escolher o caminho, sempre podemos escolher a forma de caminhar.
Se em alguns momentos, não conseguimos perceber a paisagem e ficamos assustados e cegos, que diferença isso faz, o caminho e a paisagem não se alteram, só o nosso caminhar se transforma em calvário; as nossas dores não maculam a beleza do Universo, não alteram o movimento sábio e harmonioso dos astros e da Vida, mas, fazem toda a diferença na nossa compreensão do propósito último da Vida, fazem toda a diferença na nossa apreensão da beleza desse Universo.
É o caminhar que constrói o caminho e, essa estrada sagrada não possui pontos de retorno pois, quando escolhemos uma direção, todas as outras deixam de existir, não tem como voltar atrás, pois não existe o "atrás".
Caminho e caminhante são uma única coisa, um único movimento em direção ao Absoluto; em direção ao movimento parado que abarca todos os caminhos e todos os caminhantes.
Que incoerentes seriam os retornos, já que retornar também seria continuar caminhando em outra direção; que tola e ingênua essa nossa necessidade de querer correr atrás das oportunidades que perdemos, dos sonhos que não realizamos, dos amores que não nos permitimos amar, das dores que não nos permitimos chorar, da felicidade que não nos achamos merecedores, de toda poesia que nunca permItimos que entrasse em nossa vida.
O Universo não altera o seu ritmo, para ouvir as lamentações dos homens.
Estamos à serviço da Vida!
Continuar caminhando é o nosso ofício; compreender o milagre que sustenta cada passo, cada nova descoberta, é o grande desafio humano; amar esse caminhar e arrancar poesia dessa aventura, é alimentar a beleza do Universo, é consagrar o caminho e deixar um rastro de bem-aventurança para todos os caminhantes que hão de trilhar essa maravilhosa estrada sem retorno.
Miriam Morata Novaes
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