
A Sombra Nossa de Cada Dia
Nossas máscaras nos machucam tanto quanto aquilo que não aceitamos dentro de nós.
Muitos de nós acreditamos que com a teoria e a prática corretas podemos transcender para níveis mais elevados quase magicamente. Achamos que podemos encontrar receitas fáceis que nos tirem das trevas psicológicas ou dos contextos mais angustiantes que vivemos, sem precisar lambuzar as mãos ou sujar os pés.
No fundo desejamos crescer como pessoas, realizar transformações surpreendentes, sem a necessidade de confrontar os minotauros e os lados mais mesquinhos e feios que habitam nossos porões e que mal conhecemos.
Assim, encontramos pessoas desejando superar a própria humanidade sem ao menos conhecê-la nas principais dimensões pessoais. Muitos espiritualistas, nobres por seus trabalhos, trazem a bordo tantas questões pessoais não resolvidas como, por exemplo, a desqualificação do que considera fraqueza, a arrogância do saber, a necessidade do controle, a sexualidade ingênua e não desabrochada e até mesmo a ambição materialista. Tudo isso costuma ficar recoberto pela máscara da superioridade espiritual.
Todos nós criamos nas profundidades de nossos porões do inconsciente, aspectos que desenvolvemos mal e lutamos para mantê-los na escuridão. Assim, vamos cultivando nossa face mais polida, nosso discurso mais apurado, nossos argumentos mais inteligentes, nossa cordialidade envernizada, enquanto no subterrâneo algo é negado em nós.
Nossa sombra não é apenas um lado de nós, mas, uma tecitura complexa, formada por forças que ocultamos. Em geral o que mostramos aos outros é o nosso lado consciente, a persona, aspectos que conhecemos melhor e que podemos inclusive manipular, lapidar e contextualizar de acordo com as circunstâncias e expectativas.
Só que a evolução não passa pela luz apenas. Adentrar certas áreas sombrias de nós mesmos pode nos revelar muito sobre quem somos, porque sofremos, o que podemos vir a ser.
Quando deixamos de trabalhar com nossa sombra, ela vai se tornando um espectro descabelado, de unhas compridas, sem modos e costuma desenvolver certa autonomia. Essa autonomia é o que nos surpreende. São manifestações que irrompem de forma impulsiva, inesperada em nossas atitudes. Uma sombra esquecida, apartada de nós, influencia silenciosamente nossa vida e o que sentimos. Um dia ela irrompe na sala de visitas e nos deixa corados.
O que fica na sombra precisa ser internalizado, integrado à nossa totalidade, e não, renegado. O que em geral, de forma totalmente inconsciente, fazemos é projetar nossos aspectos reprimidos nos outros. Às vezes nos casamos com alguém que empunha aspectos de nossa sombra. Por vezes nos encantamos com aquilo que está aparente no outro, mas, se esconde em nossas profundezas, nas sombras. E é esse mesmo aspecto que depois de algum tempo passa a ser o ponto crítico do relacionamento, gerador de crises importantes. Antes, encantava. Depois, passamos a odiar e atacar.
Esse é um típico exemplo de como somos sabotados por nossa própria sombra.
O caminho para a individuação e totalidade, ou seja, para um estado de plenitude e integração, só tem início quando nos dispomos a enfrentar nossas sombras. Trazê-las à tona, cortar suas unhas, pentear-lhes os cabelos, conhecer suas causas. Enfim, integrá-las a quem somos. Este é um caminho.
O processo de autopesquisa é uma alavanca que nos ajuda a fazer essas descobertas, essenciais para se viver a luz interna.
Christina Queiroz
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